Talk de Midas Pharma · A régua

A nota do evento veio boa, e ninguém lembra do conteúdo

Avalie um palestrante por cinco sinais de comportamento, ao lado da nota da pesquisa de satisfação. A nota mede o humor da sala no minuto final. Os cinco sinais medem o que sobrou depois: o que a plateia lembra em setenta e duas horas, que tipo de pergunta ela faz, quanto tempo ela fica, quem pede aquele nome de volta sem você sugerir, e com quantos dias de antecedência o roteiro da fala ficou pronto. Os cinco se observam com uma planilha em branco.

Ver os cinco sinais
O instrumento que todo mundo já tem

A pesquisa de satisfação responde bem a pergunta que ela faz.

O formulário chega ao participante no fim do dia, com a sala ainda cheia e o crachá ainda no pescoço. Ele pergunta como foi a experiência, e a pessoa responde sobre a experiência: o local, a programação, o café, o tempo de fila, a sensação geral de ter valido a pena estar ali. A nota volta alta com frequência, e ela está certa sobre o que mediu.

A pergunta que fica sem instrumento é outra. Semanas depois, o conteúdo que o palestrante levou quarenta minutos para apresentar sobrevive em uma frase solta, quando sobrevive. O comitê monta a grade do ciclo seguinte e não encontra, no relatório, nada que ajude a decidir quem volta.

A nota mede o humor da sala. A lembrança da mensagem mede outra coisa, e ela se manifesta em ato: no que a pessoa repete, no que ela pergunta, no que ela pede de volta. Ato deixa rastro, e rastro se conta.

Na avaliação de um evento na Eli Lilly, em 2017, com nove respostas, a palestra tirou 9,4, a maior média entre os oito itens avaliados, e a oficina tirou 8,8. Os dois comentários nominais pediam a mesma coisa: feedback individual sobre a peça que o participante tinha produzido.

Storytellers

A nota mais alta do evento veio acompanhada de um pedido de correção. Quem só lê a nota perde o pedido.

O que observar, e quando

Cinco sinais de comportamento, nenhum deles pede ferramenta.

Os cinco sinais da régua, com o que observar e o que cada um indica
Sinal O que observar O que ele indica
01 A retenção com nome Setenta e duas horas depois, pergunte a três participantes o que ficou da sessão. Sem consultar material, sem aviso prévio. Quem volta com o tema recebeu a mensagem. Quem volta só com o nome do palestrante recebeu a performance, e a mensagem ficou no caminho.
02 A natureza da pergunta No fim da sessão, separe as perguntas em dois montes: as de aplicação (como faço isso no meu serviço) e as de esclarecimento (não entendi o gráfico do slide doze). Pergunta de aplicação prova que a plateia já levou o conteúdo para dentro. Pergunta de esclarecimento aponta a construção da fala. Silêncio total é o sinal mais caro dos três.
03 A permanência Conte a sala no minuto cinco e no minuto final. Repita na última sessão do dia, que é onde o formato de congresso costuma perder gente. A curva de saída marca o ponto exato em que a fala soltou a mão da plateia, e esse ponto tem endereço no roteiro.
04 O reconvite que vem de fora No ciclo seguinte, registre quem pediu aquele nome de volta antes de você sugerir. Comitê científico, patrocinador, participante. O reconvite espontâneo mede lembrança de mensagem. Ele é o único sinal que outra pessoa produz por conta própria, e por isso o mais difícil de fabricar.
05 A antecedência do roteiro Anote a data em que o roteiro da fala ficou pronto, e compare com a data do evento. É o único dos cinco sinais que se observa antes do palco. Roteiro fechado na véspera indica improviso apoiado em slide. Roteiro fechado com semanas de folga indica que houve tempo de cortar, e o corte é onde a fala ganha.
O case

Uma plateia que ninguém achava que dava para mudar.

IT Forum, do mecenas IT Mídia, o cliente que investe em storytelling, projeto de 2015 a 2019 2,8 para 0,6 compromissos marcados e não cumpridos por convidado. A média histórica do evento era 2,8. Em 2017, com o modelo de storytelling e gamificação iniciado em 2016 já consolidado, a média caiu para 0,6, uma redução de 78,6%.

O número acima precisa do contexto para ser lido, e o contexto é parte do dado. No IT Forum, a reunião é o produto do evento: ele vendia agenda um a um entre os executivos de tecnologia das maiores empresas do país e os patrocinadores. Cada convidado marcava compromissos e deixava de comparecer a alguns, e o patrocinador pagava caro pela reunião que não acontecia. Todo mundo sabia, ninguém falava, e o mercado tratava a falta como natureza do público técnico.

Por que este número é raro

Ele mede comportamento. Satisfação e lembrança de marca medem humor, e humor é legítimo de medir. O comparecimento mede ato, e mede ato numa plateia que a própria indústria tinha desistido de mudar. No mesmo ciclo, 100% dos convidados e 100% dos patrocinadores de 2016 disseram que voltariam, e o projeto levou Prêmios Caio ao longo dos três anos, o de 2016 na categoria Evento Corporativo.

O que isso empresta a um simpósio médico

A mecânica de um congresso de tecnologia e a de um congresso médico diferem em quase tudo, e o que atravessa é o princípio: existe um ato observável que traduz o resultado que o evento vende. No IT Forum era o comparecimento à reunião. Num simpósio, os candidatos são a permanência na sala, a pergunta de aplicação e o reconvite espontâneo, que são os sinais dois, três e quatro da régua acima.

A escolha do ato certo é a decisão que faz o relatório mudar de assunto. Tratamos dessa escolha, e da conta que o orçamento do simpósio não fecha, em uma peça própria desta trilha.

Perguntas

O que costumam perguntar sobre a régua.

Qual a diferença entre a pesquisa de satisfação e esta régua?

A pesquisa de satisfação pergunta como a pessoa se sentiu, e ela responde no minuto final, dentro da sala, com o café ainda na mão. É uma medida de humor, e humor é uma informação real sobre a experiência do evento. A régua dos cinco sinais mede ato: o que a pessoa lembra depois, o que ela pergunta, quanto tempo ela fica, quem ela chama de volta e quando o roteiro ficou pronto. As duas medem coisas diferentes e convivem bem no mesmo relatório.

Dá para aplicar a régua sem ferramenta nenhuma?

Dá, e ela foi desenhada assim. Os cinco sinais se observam com uma planilha em branco, três conversas de corredor e o registro de quem pediu o nome de volta. Nenhum deles exige software, sensor de sala ou pesquisa nova com o participante.

Quantos participantes preciso ouvir para o sinal valer?

Três conversas já mudam a conversa interna, e vinte mudam o relatório. O que dá força ao sinal é a repetição ao longo dos ciclos, e não o tamanho da amostra de um evento isolado. Registre com a mesma pergunta em todos os ciclos, porque comparação exige medir a mesma coisa duas vezes.

A régua serve para comparar dois palestrantes diferentes?

Ela serve melhor para comparar o mesmo palestrante em dois momentos, porque tema, horário na grade e composição da plateia mudam o resultado de forma que a régua sozinha não isola. Para comparar pessoas diferentes, use o sinal quatro, o reconvite espontâneo, que é o menos sensível ao contexto da sala.

E se o palestrante for um médico externo, mais titulado que quem organiza?

É o caso mais comum em farma, e é onde a régua faz a diferença que ela existe para fazer. Critério escrito antes do evento transforma a conversa de preparo em conversa de ofício, com a mesma régua valendo para todos os nomes da grade. A peça Como pedir a um médico renomado que se prepare melhor, nesta mesma trilha, abre os cinco passos dessa conversa.

O que fazer com o resultado da régua?

O primeiro uso é interno: a régua dá ao time que organiza um vocabulário comum para falar do palco, e vocabulário comum é o que falta quando ninguém comenta a fala de ninguém. O segundo uso é o preparo do ciclo seguinte, porque os cinco sinais apontam para decisões que se tomam antes do evento, na construção da fala.

O estudo

Antes de cobrar a régua do palco, vale saber onde ela nunca foi ensinada.

Auditamos as matrizes curriculares das 20 primeiras faculdades de medicina do Ranking Universitário Folha de 2024, uma a uma, na fonte oficial de cada universidade. Nenhuma tem disciplina obrigatória de oratória. As sete primeiras foram coletadas em 26 de agosto de 2025 e as treze restantes em 10 de agosto de 2026, e currículo muda: é o retrato dessas datas. O estudo completo está no ar, com a tabela por universidade e a metodologia.

Ler o estudo completo
Fernando Palacios Fundador da Storytellers e 2x World's Best Storyteller, World HRD Congress, Mumbai, 2017 e 2018, único brasileiro. A Storytellers é a primeira empresa de storytelling do Brasil, 20 anos e 30 mil profissionais treinados ao vivo em 10 países.