Talk de Midas Pharma · A conversa que não acontece

Por que ninguém corrige o palestrante ruim

Porque o silêncio é a decisão racional de cada pessoa que poderia falar. O moderador é par do palestrante. O comitê científico é formado por colegas. Quem convidou depende do sim do ano seguinte. O organizador é fornecedor. Sem um critério público sobre o que aquela sessão precisava entregar, qualquer observação chega como julgamento sobre a pessoa. Critério escrito antes do convite devolve a conversa ao terreno do ofício.

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Onde a informação para

Todo mundo na sala sabe, e a leitura fica no corredor.

A leitura abaixo vem do trabalho com áreas médicas e comitês científicos, e vale como observação de prática.

A sessão termina e a sala aplaude, porque a sala sempre aplaude. No café, três pessoas comentam a mesma coisa em voz baixa. A observação circula pelo corredor, pelo grupo de mensagens do time e pelo carro a caminho do aeroporto. A plateia, a audiência daquela sessão, sai com uma leitura formada. Ela chega a todo mundo, com uma exceção: a pessoa que poderia usá-la.

Quem sobe ao palco assumiu um risco que a plateia não assumiu. Aceitou o convite por convicção e por relação, preparou o material entre plantão, ambulatório e pesquisa, e ficou de pé sozinho diante de uma sala cheia de pares. Esse é o motivo de a conversa ser difícil, e é também o motivo de ela merecer ser feita bem.

Quatro pessoas poderiam falar, e as quatro têm razão para calar. O moderador é par do palestrante, e os dois se reencontram na mesma sociedade em novembro. O comitê científico é formado por colegas que convidaram aquele nome pelo peso dele. Quem convidou, do medical affairs, precisa do sim da próxima edição. O organizador é fornecedor, e fornecedor não corrige convidado de honra.

Cada silêncio é racional isolado. O custo aparece somado, na sala inteira, na edição seguinte.

O que produz o silêncio

Três causas estruturais, e todas antecedem as pessoas envolvidas.

Causa 1

A relação vem antes da conversa

Quem poderia comentar depende de quem seria comentado: do convite do ano seguinte, da coautoria, da indicação, da agenda da sociedade. O custo da frase é imediato e cai sobre quem fala. O ganho pertence à edição seguinte, que ainda não tem dono.

O custo é hoje, o ganho é depois
Causa 2

Falta um critério público

Sem uma régua escrita sobre o que aquela sessão precisava entregar, toda observação vira opinião. Opinião sobre a fala de um médico titulado chega como opinião sobre ele, e é aí que a frase morre na garganta de quem ia dizê-la.

Sem régua, tudo vira gosto
Causa 3

O ofício nunca teve aula

A habilidade cobrada naquele palco ficou fora da formação de todo mundo da sala, de quem fala e de quem ouve. Sem vocabulário comum para descrever o que aconteceu, sobra o adjetivo, e adjetivo sobre pessoa é julgamento.

Sem vocabulário, sobra o adjetivo

A terceira causa tem documento. Auditamos as matrizes curriculares das 20 primeiras faculdades de medicina do Ranking Universitário Folha de 2024, na fonte oficial de cada universidade, as sete primeiras em 26 de agosto de 2025 e as treze restantes em 10 de agosto de 2026. Nenhuma tem disciplina obrigatória de oratória, expressão oral, retórica ou fala em público. Oito têm disciplina obrigatória cujo nome declara comunicação ou a relação médico-paciente, sempre no terreno da consulta. Três oferecem algo próximo em regime eletivo, e as três chegam pela porta do teatro.

A sala inteira daquele congresso, palco e plateia, aprendeu a apresentar por imitação de quem também aprendeu por imitação. Imitação transmite hábito e deixa o vocabulário técnico para trás, e é o vocabulário técnico que permite comentar uma fala sem comentar uma pessoa. O estudo completo, com a tabela por universidade e as datas de coleta, está aberto aqui.

A troca de terreno

A mesma observação, dita de dois jeitos, muda de dono.

A coluna da esquerda pertence à pessoa que falou. A coluna da direita pertence à sessão que foi desenhada. Entre uma e outra existe um critério escrito antes do convite e combinado com quem vai subir ao palco, item por item, do mesmo jeito que se combina horário e sala.

A frase de corredor O que ela vira quando chega A mesma observação em critério de ofício
"Ele fala demais" Avaliação de temperamento A fala passou do tempo combinado no convite. O redesenho para o tempo do bloco entra como item da próxima edição
"O slide estava carregado" Crítica de gosto O padrão de slide combinado no convite ficou fora em parte das telas, e a plateia leu a tela mais rápido do que ouviu a fala
"Ficou muito técnico" Julgamento de estilo O perfil da plateia foi definido no desenho da grade, e o combinado era abrir pelo caso antes do método
"Ninguém perguntou nada" Constatação sem dono A fala entregou conclusões fechadas, e o bloco final precisa de uma pergunta viva para existir
"Ele não engaja" Traço de personalidade A abertura foi ocupada por filiação e agradecimentos, e o argumento entrou depois do intervalo em que a plateia calibra a atenção

O escopo desta tabela. Ela organiza observação de prática na preparação de porta-vozes médicos, e vale como observação. A coluna da direita depende de um critério escrito antes do convite, com os valores combinados por quem desenha a sessão. As linhas acima são exemplos de forma, e cada casa escreve os seus. O critério funciona quando chega ao palestrante junto com o convite, antes da sessão.

O pedido de correção veio de quem estava na sala

Em 2017, num evento nosso na Eli Lilly, mecenas da Storytellers, o cliente que investe em storytelling, a avaliação do evento teve nove respostas. A palestra tirou 9,4, a maior média entre os oito itens avaliados, acima de local e de programação. A oficina do mesmo dia tirou 8,8.

2 comentários nominais naquela avaliação, e os dois pediam a mesma coisa: feedback individual sobre a peça que o participante tinha produzido. Fonte: avaliação do evento na Eli Lilly, 2017, n igual a 9, com a nota 9,4 como maior média dos oito itens. A mesma nota foi a maior do evento na Pfizer em 2024. Universo pequeno: o dado registra que o pedido existe e chega quando há campo aberto para ele. Nenhuma generalização se tira daqui.

O pedido de correção chegou no evento mais bem avaliado do dia, escrito à mão por quem participou. Quem se expõe quer saber onde melhorar, e diz isso na primeira vez em que existe um campo para dizer. O que costuma faltar é o campo.

A conversa que a área evita é a mesma que a plateia procura. E o que a plateia pede tem forma exata: um retorno específico sobre a peça que a pessoa construiu, dito por alguém com critério e sem lugar na disputa de relações. É o desenho de um terceiro de fora, combinado antes, com escopo declarado.

Escrever esse critério, sustentar o combinado com o palestrante e devolver o retorno depois é um trabalho que quase nunca aparece na foto do evento. Tratamos do ofício de quem prepara o palco em peça própria. Quando o retorno precisa chegar a um médico mais velho e mais titulado do que quem convida, a conversa tem passos próprios, e eles estão em como pedir a um médico renomado que se prepare melhor.

O mesmo silêncio tem uma versão financeira, do outro lado da planilha: o simpósio que consumiu orçamento e deixou lembrança curta. E o sintoma dentro da própria sala, sinal por sinal, está em plateia dispersa em congresso médico.

Perguntas

O que costumam perguntar sobre a conversa que não acontece.

Por que ninguém corrige um palestrante que foi mal?

Porque o silêncio é a decisão racional de cada pessoa que poderia falar. O moderador é par do palestrante e reencontra ele na mesma sociedade. O comitê científico é formado por colegas que convidaram aquele nome pelo peso dele. Quem convidou, do medical affairs, depende do sim da próxima edição. O organizador é fornecedor. O custo da frase cai sobre quem fala, e o ganho é da edição seguinte, que ainda não tem dono.

É papel do medical affairs dar esse retorno ao KOL?

O papel se define no desenho da sessão, antes do convite. Quem escreve o critério da sessão e o combina com o palestrante ganha lugar para devolver o resultado depois, porque a conversa passa a ser sobre o combinado. Sem esse combinado prévio, qualquer pessoa que fale está opinando sobre outra, e aí a hierarquia informal decide quem cala.

Como dar feedback a um KOL sem constranger a relação?

Movendo a conversa do estilo para o combinado. Tempo de bloco, padrão de slide, perfil da plateia e formato do fecho são itens de escopo do evento, e itens de escopo se conversam entre profissionais. A peça Como pedir a um médico renomado que se prepare melhor, nesta mesma trilha, abre os cinco passos dessa conversa.

Os palestrantes querem receber esse retorno?

A avaliação de um evento nosso na Eli Lilly, em 2017, com nove respostas, registrou o pedido por escrito. A palestra tirou 9,4, a maior média entre os oito itens avaliados, acima de local e de programação, e a oficina do mesmo dia tirou 8,8. Os dois comentários nominais daquela avaliação pediam a mesma coisa: feedback individual sobre a peça que o participante tinha produzido. O pedido veio da própria plateia, num evento que ela avaliou no topo da escala.

O que o silêncio custa ao evento?

A mesma sessão se repete na edição seguinte, porque nenhuma informação chegou a quem poderia mudá-la. O nome sai da grade sem explicação, e quem saiu atribui a rodízio ou a política interna. A área conclui que o formato está esgotado e troca o formato, quando o que faltava era o retorno. O custo aparece somado, e nunca na conta de quem calou.

O estudo

O vocabulário que falta na conversa começa numa lacuna de formação.

Vinte matrizes curriculares lidas na fonte oficial de cada universidade, com a metodologia declarada e o recorte dito por escrito.

Ler o estudo completo
Fernando Palacios Fundador da Storytellers e 2x World's Best Storyteller, World HRD Congress, Mumbai, 2017 e 2018, único brasileiro. A Storytellers é a primeira empresa de storytelling do Brasil, 20 anos e 30 mil profissionais treinados ao vivo em 10 países.