Talk de Midas Pharma · A queixa dita no corredor

"Acho um absurdo congresso médico ser tão chato": o que a frase está observando

A queixa procede, e quem a diz costuma estar dos dois lados. Congresso médico entrega atualização em bloco, encontro entre pares e credenciamento público de ideias. Cobra em sessões longas, densidade alta por minuto e zero preparo de fala. A última linha da conta tem documento: auditamos as matrizes das 20 primeiras faculdades de medicina do Ranking Universitário Folha 2024 e nenhuma ensina fala em público como disciplina obrigatória. Quem herdou esse repertório não escolheu herdá-lo.

Ver o que a frase está observando
A frase

Quem diz isso quase sempre gosta do que está ali.

A frase aparece no corredor, na fila do café, na saída de uma sessão. Sai em voz baixa, entre duas pessoas que se conhecem, e vem com um constrangimento junto. O que segue é observação de prática na preparação de porta-vozes médicos.

Ninguém diz isso sobre uma área que lhe seja indiferente. Quem troca um plantão, atravessa o país e paga inscrição para passar dias inteiros dentro de um auditório tem interesse declarado no assunto. O incômodo mede a distância entre o que aquele conteúdo poderia produzir e o que a sala levou embora.

Existe um segundo movimento, que chega meio segundo depois. Quem fala a frase costuma ser alguém que também sobe naquele palco. Já apresentou trabalho, já mediou mesa, já preencheu quinze minutos de simpósio com o material que tinha. A queixa chega acompanhada de uma conta pessoal, e a conta tem uma frase própria: eu também sou parte disso.

É essa conta que faz a observação morrer no corredor. A frase sai baixo, alguém ri, e o assunto encerra antes de virar pergunta.

O que acontece depois

A mesma frase tem três destinos, e dois deles terminam ali.

Destino 1

A frase vira piada

Ela circula como humor de corredor e recebe concordância imediata. O humor alivia o incômodo e consome a informação junto. Na edição seguinte a piada volta igual, o que já é sinal de que ela descreveu alguma coisa real.

Alivia e encerra
Destino 2

A frase vira culpa

Quem também apresenta se lembra disso e recolhe a observação. A culpa se parece com honestidade, e o efeito prático é o silêncio: a pessoa mais bem posicionada para descrever o problema por dentro é a primeira a se calar.

Cala quem tem o que dizer
Destino 3

A frase vira pergunta

O incômodo passa a apontar para o desenho do encontro: quanto tempo cada sessão ocupa, quanta informação cabe em um minuto, quem preparou a entrega. São escolhas com dono, e escolha se revisa.

Abre a investigação

Os três destinos cabem no mesmo corredor. O terceiro exige um passo a mais, que é separar o que o congresso entrega bem daquilo que ele cobra caro.

O par

O congresso entrega muito, e cobra em outro lugar.

Tratar o congresso como formato falho apaga o motivo de ele existir. Ele entrega três coisas que nenhuma outra estrutura entrega juntas: atualização em bloco, encontro presencial entre pares e credenciamento público de ideias novas. Cada uma dessas entregas cobra um custo específico, e o custo aparece na sala. A tabela abaixo põe as duas colunas lado a lado.

Tabela do que o congresso entrega e do custo que cada entrega cobra
O que o congresso entrega bem O custo que essa entrega cobra Como o custo aparece na sala
Atualização em bloco Densidade muito alta de informação por minuto A sala satura antes do fim da sessão e passa a selecionar o que ouve
Encontro presencial entre pares Programação cheia da manhã à noite A atenção chega gasta nas sessões finais de cada dia
Credenciamento público de ideias Prioridade ao rigor do conteúdo sobre o desenho da fala O slide vira documento e a fala vira leitura em voz alta
Espaço para muitos autores Sessões longas, com oradores em sequência sobre o mesmo tema A mesma estrutura de apresentação se repete muitas vezes no mesmo dia
Convite como reconhecimento de carreira Ausência de preparo de fala, porque o preparo nunca foi ensinado Todo o esforço fica no conteúdo e desaparece na hora de entregá-lo

O escopo desta tabela. As três colunas organizam observação de prática na preparação de porta-vozes médicos, e valem como observação. Elas são leitura de padrão, sem estudo controlado por trás. O único dado auditado desta página é o das matrizes curriculares, logo abaixo, com fonte, instrumento e data. A tabela serve para levantar hipótese sobre um evento específico, e a verificação é sempre na programação daquele evento.

A linha que tem documento

Quem herdou o repertório não escolheu herdá-lo.

Das cinco linhas da tabela, a última tem verificação pública. A ausência de preparo de fala começa muito antes do congresso, na graduação, e as matrizes curriculares são documentos abertos. Nós as lemos uma a uma, na fonte oficial de cada universidade.

0 de 20 cursos entre os 20 melhores do Brasil com disciplina obrigatória de oratória, expressão oral, retórica ou fala em público. Fonte: auditoria das matrizes curriculares oficiais, universo Ranking Universitário Folha 2024, coleta em 26 de agosto de 2025 e 10 de agosto de 2026, campus sede onde há mais de um. Duas ressalvas de acesso declaradas no estudo, UFRN e PUCPR. Currículo muda: é o retrato dessas datas. Estudo completo, com a tabela por universidade.

Três das 20 oferecem algo próximo em regime eletivo, e as três chegam pela porta do teatro ou das artes: UNICAMP, UECE e UFPR. Em nenhuma das 20 a palavra marketing aparece no nome de uma disciplina. Eletiva significa escolha do aluno entre dezenas de opções, dentro de um curso de seis anos com carga obrigatória alta.

É aqui que a conta pessoal se resolve. Quem sobe ao palco de um congresso aprendeu a apresentar assistindo a quem também aprendeu assistindo. O repertório passou de geração em geração por imitação, e nenhum ponto da formação ofereceu alternativa. Ser parte de um padrão herdado é uma posição diferente de ter criado o padrão, e a diferença importa, porque uma delas admite conserto. A causa curricular está desenvolvida no hub da trilha sobre formação médica e comunicação, com o que a grade decidiu e o que a decisão produz na carreira.

A troca

Uma pergunta útil no lugar da queixa.

A queixa descreve um efeito, e o efeito é grande demais para ter dono. A pergunta útil desce um andar e procura a decisão que o produziu. Ela cabe em uma linha: qual escolha de desenho gerou o tédio que eu senti naquela sessão?

A pergunta tem quatro versões práticas, e todas se respondem antes do próximo evento.

  1. Quantos minutos de fala a sessão reserva, e quanto conteúdo foi escrito para eles.
  2. O que a primeira frase entrega além de nome, instituição e agradecimento.
  3. Quanto texto o slide carrega, e quanto dele a plateia lê antes de a frase terminar.
  4. Qual pergunta a fala deixa aberta para o bloco final.

As quatro pertencem a quem prepara a fala, e as quatro se revisam em uma tarde. Nenhuma delas depende do comitê científico, do horário da sessão ou do tamanho da sala. Esse é o pedaço da queixa que volta para a mão de quem a fez, e ele é pequeno o bastante para caber ali.

Perguntas

O que costumam perguntar sobre congresso chato.

Por que congresso médico costuma ser tão chato?

O formato foi desenhado para densidade de informação, e a entrega da fala ficou de fora do desenho. Na observação de prática, sessões longas, muita informação por minuto e oradores em sequência produzem saturação. Some a isso o fato de que ninguém foi ensinado a preparar a entrega: nenhuma das 20 primeiras faculdades de medicina do Ranking Universitário Folha 2024 tem disciplina obrigatória de fala em público, segundo auditoria das matrizes curriculares oficiais com coleta em 26 de agosto de 2025 e 10 de agosto de 2026.

Reclamar do congresso é injusto com quem organiza?

A queixa descreve o efeito na sala, e o efeito existe. A comissão organizadora controla tempo, ordem e tamanho da programação, e trabalha dentro de restrições reais de agenda e de número de trabalhos aceitos. A parte que ela controla e a parte que cabe a quem apresenta são diferentes, e separá-las torna a conversa produtiva para os dois lados.

Eu também apresento em congresso. A queixa vale contra mim?

Vale como observação sobre um padrão que você herdou. O repertório de apresentação passa adiante por imitação, e a graduação médica brasileira deixou de oferecer alternativa: a auditoria das 20 matrizes curriculares oficiais das primeiras colocadas do Ranking Universitário Folha 2024, com coleta em 26 de agosto de 2025 e 10 de agosto de 2026, encontrou zero disciplina obrigatória de fala em público. A parte que volta para a sua mão é pequena e revisável, e ela está no recorte do conteúdo para o tempo real, na primeira frase, no slide e na pergunta que fica aberta no fim.

Existe algum dado sobre a formação do médico em comunicação?

Existe, e é público. Auditamos as matrizes curriculares oficiais das 20 primeiras faculdades de medicina do Ranking Universitário Folha de 2024, uma a uma, com coleta em 26 de agosto de 2025 e 10 de agosto de 2026. Nenhuma tem disciplina obrigatória de oratória, expressão oral, retórica ou fala em público. Três oferecem algo próximo em regime eletivo, sempre pela porta do teatro ou das artes.

O que dá para mudar sem mudar o formato do congresso?

Quatro decisões que pertencem inteiramente a quem prepara a fala: quanto conteúdo entra no tempo real da sessão, o que a primeira frase entrega, quanto texto o slide carrega e qual pergunta fica aberta para o bloco final. As quatro se revisam antes da sala, e nenhuma delas depende de autorização da comissão organizadora.

A próxima leitura

A mesma queixa, dita de fora da sala.

A peça seguinte pega a versão pública desta frase, a que generaliza para toda palestra de médico, e responde pelo lado que a preparação controla.

Ler a próxima peça da trilha

O estudo das 20 matrizes curriculares fica como material de apoio, com a tabela por universidade, a metodologia declarada e as datas de coleta ditas por escrito. Ver o estudo completo.

Fernando Palacios Fundador da Storytellers e 2x World's Best Storyteller, World HRD Congress, Mumbai, 2017 e 2018.