Por que o médico não aprende a falar em público na faculdade
Porque a habilidade nunca entrou na grade. Auditamos as matrizes curriculares dos 20 melhores cursos de medicina do Brasil, na fonte oficial de cada universidade. Nenhum tem disciplina obrigatória de oratória. Oito ensinam a conversa de consultório com disciplina de nome próprio. O palco, onde a plateia deixa de ser uma pessoa, ficou fora do currículo.
A habilidade é cobrada muito depois de ter sido ensinada.
O convite chega pronto. Um simpósio, uma mesa-redonda, quinze minutos para apresentar o desfecho de um estudo que consumiu três anos. O médico tem o conteúdo inteiro na cabeça e descobre, na véspera, que a técnica de entregá-lo pertence a um repertório que ninguém lhe ensinou.
A conclusão disponível, quase sempre, é sobre a própria pessoa: falta de dom, falta de carisma, um traço de personalidade que os outros receberam.
A matriz curricular conta uma história diferente. Fomos ler as grades dos 20 melhores cursos de medicina do país, na fonte oficial de cada universidade. A palavra oratória não aparece em nenhuma das 20 grades, obrigatória ou eletiva. O mesmo vale para expressão oral, retórica e fala em público.
Na preparação de porta-vozes, o médico que chega ao primeiro treino aprendeu isso no susto, diante da primeira plateia, e aprendeu sozinho.
A pergunta muda de dono. Sai de quem sobe ao palco e vai para quem desenhou a formação.
Três decisões curriculares, tomadas antes dele entrar.
A conversa de consultório entrou pela porta da frente
Oito das 20 têm disciplina obrigatória cujo nome declara comunicação ou a relação médico-paciente. A UNESP ensina Comunicação e Anamnese na primeira série, 60 horas. A UFSM dedica 75 horas à Relação Médico e Paciente.
Um médico, um paciente, uma sala fechadaO palco entrou pela porta do teatro, e como escolha
Três universidades chegam perto, e as três chegam pelas artes. A UNICAMP monta um espetáculo teatral. A UECE dramatiza a consulta. A UFPR ensina arte do clown e contação de histórias dentro de humanidades médicas. Nas três, a matéria é eletiva e depende de vaga.
Sai da grade e cai na escolha do alunoA plateia grande ficou sem disciplina titular
O congresso, a câmera, o conselho, a aula para a residência, a entrevista. Toda vez que a plateia deixa de ser uma pessoa, a técnica muda. Esse território fica sem dono nas 20 matrizes auditadas.
Ninguém assinou esse terrenoO que a ausência produz na carreira de quem se forma.
Uma lacuna de currículo vira, anos depois, uma sequência de episódios que parecem isolados. Preparando porta-vozes médicos, vemos os mesmos três.
O convite que para de voltar
A avaliação do evento vem boa, o coordenador agradece, e o nome some da grade do ano seguinte. Como ninguém explica a razão, o médico atribui à política interna ou ao rodízio de nomes.
A retenção que a nota esconde
A pesquisa de satisfação mede a experiência da sala e devolve um número alto. Semanas depois, o conteúdo que ele levou meia hora para apresentar sobrevive em uma frase solta, quando sobrevive. A nota mediu o conforto.
A conclusão que fica na primeira pessoa
Este é o mais caro dos três. Depois de dois ou três episódios, a explicação migra do episódio para a identidade: eu não nasci para isso. A partir daí o médico recusa convite antes de avaliar, e a habilidade para de ser exercitada exatamente quando precisava de repetição.
A lacuna curricular tem uma vantagem prática sobre a explicação identitária: currículo se complementa. Tratamos dessa migração da explicação em uma peça própria desta trilha.
A lacuna da formação, em quatro leituras.
O que costumam perguntar sobre a lacuna.
Por que a oratória ficou fora do currículo de medicina?
A grade de medicina foi desenhada em torno do encontro clínico, que acontece entre duas pessoas. A comunicação que ela ensina é a da anamnese e da consulta. A fala para uma plateia grande pertence a outro ofício, e esse ofício ficou sem disciplina titular nas 20 matrizes que auditamos.
O que a graduação ensina de comunicação, então?
Oito das 20 melhores faculdades têm disciplina obrigatória cujo nome declara comunicação ou a relação médico-paciente. A UNESP ensina Comunicação e Anamnese já na primeira série, 60 horas. A UFSM dedica 75 horas à Relação Médico e Paciente. A UERJ tem Competência Narrativa na Prática Médica, 40 horas, que trabalha a narrativa clínica e deixa a fala pública de fora.
O que dá para fazer sobre uma lacuna que já aconteceu?
A habilidade se separa em três camadas com prazos diferentes, e a mais ensinável delas é a que ficou de fora da grade. A peça Comunicação é dom ou se aprende, nesta mesma trilha, abre a separação com a tabela dos três prazos.
O estudo vale para quem se formou fora das 20 melhores?
O recorte são as 20 primeiras do Ranking Universitário Folha de 2024, e onde a universidade tem mais de um campus com curso de medicina, auditamos o campus sede. O Brasil tem centenas de outros cursos de medicina, e este estudo fala pelo topo do ranking, que é o que ele mediu.
Quem contrata o médico como palestrante também sente essa lacuna?
Sente, e do outro lado da sala. Quem monta um simpósio precisa pedir preparo a um médico externo, mais velho e mais titulado, que aceita o convite por convicção e por relação. A conversa fica difícil porque o preparo saiu do terreno do evento e virou assunto pessoal. A peça Como pedir a um médico renomado que se prepare melhor, nesta mesma trilha, trata só disso.
Vinte currículos abertos, e a conta de quem nunca teve aula disso.
O estudo completo está no ar, com a tabela por universidade, a metodologia e as datas de coleta.