Como fazer slides que a plateia lembra
Um slide gruda quando ele carrega uma informação que a fala não carrega. A memória visual trabalha por associação, e a associação nasce da diferença entre o que a plateia vê e o que ela ouve. Tela e fala com o mesmo conteúdo disputam o mesmo canal, e uma apaga a outra. Cinco decisões resolvem isso: duplo sentido, economia, complementar, olhos e rima visual.
A tela cheia nasce de duas obrigações reais.
Quem enche o slide cumpre duas coisas legítimas: deixa o dado disponível para conferência na hora e mostra o tamanho do estudo atrás da conclusão. É por isso que a tela cheia atravessa tantas revisões sem que ninguém a questione.
O custo aparece na leitura. Uma plateia adulta lê mais rápido do que o palestrante fala. Quando a tela repete a fala, a sala termina de ler em poucos segundos e passa o resto do bloco esperando a voz alcançar o texto. Esse intervalo de espera é onde a sala procura outra coisa para fazer.
A memória guarda por associação. Ela grava com facilidade a ligação entre uma imagem e uma frase que dizem coisas diferentes sobre o mesmo ponto, porque aí existem dois traços para reencontrar uma semana depois. Uma tela que repete a fala deixa um traço só.
O corpo probatório tem lugares próprios: a resposta à pergunta difícil do fim, o slide de referência, o material de apoio e o backup depois da última tela. Todos aguentam densidade, e nenhum deles cobra a atenção da sala.
As cinco decisões de uma tela que soma à fala.
Nós chamamos esse conjunto de DECOR, o método de slides em que imagem, frase e fala não se repetem. O nome carrega o duplo sentido do próprio método: decorar, no sentido de transformar o roteiro em visual, e saber de cor, que é o que a plateia faz quando os três canais somam. A regra cardinal cabe em uma linha: "Se está escrito, não precisa ser dito".
| Decisão | O que ela decide | Erro correspondente |
|---|---|---|
| D. Duplo sentido | Que imagem entra. Ela carrega um sentido imediato, entendido em menos de um segundo, e um conceito que só aparece quando a fala revela. Metáfora visual, contraste de escala e referência cultural são os caminhos mais rápidos. | A imagem que ilustra ao pé da letra a palavra do título, e que a plateia já resolveu antes de olhar. |
| E. Economia | Quantas palavras ficam na tela em cada momento da fala. O intervalo é de 5 a 9 palavras, com alvo entre 6 e 7, em uma linha só, sem bullet e sem ponto final. | O parágrafo na tela, que põe a leitura da sala e a fala do palestrante no mesmo canal. |
| C. Complementar | O que cada canal carrega. Imagem, frase e fala levam informações diferentes sobre o mesmo ponto, e nós chamamos isso de codificação tripla. O teste é de remoção: tire um dos três e veja se some informação. | A frase da tela repetida na fala palavra por palavra. |
| O. Olhos | O DNA visual, a mesma linha gráfica do começo ao fim. Uma paleta, um estilo de imagem, uma tipografia e espaço em branco constante em todas as telas. | O deck montado por colagem, com um slide de cada origem e três fontes diferentes. |
| R. Rima visual | A continuidade entre telas. Uma tela arma e outra paga, mais adiante. A unidade de montagem é a transição, e nenhuma tela é ilha. | Armar a tensão em uma tela e seguir em frente sem voltar para resolvê-la. |
As mesmas informações, divididas de outro jeito.
A versão que costuma chegar pronta
No alto, o título "Resultados: desfecho primário e desfechos secundários". No corpo, seis linhas de bullet com o número de pacientes, o braço comparador, a diferença observada, o valor de p, o intervalo de confiança e a nota de rodapé. No canto, a curva de sobrevida espremida em um quarto da tela. E na fala, o palestrante lê as seis linhas em voz alta, de cima para baixo.
Perto de sessenta palavras na tela, com uma informação nova só, que é justamente a curva pequena no canto.
A mesma tela, depois das cinco decisões
- A frase (E, economia): A CURVA SE SEPAROU ANTES DO ESPERADO. Sete palavras, uma linha, caixa alta, sem ponto final.
- A imagem (D, duplo sentido): um caminho que se bifurca, com os dois ramos seguindo distâncias diferentes. Sentido imediato, dois caminhos. Conceito que a fala revela, os dois braços do estudo.
- A fala (C, complementar): o palestrante conta em que momento a equipe percebeu a separação e o que ela mudou na condução. Nada disso aparece escrito na tela.
- A tela seguinte (O e R, olhos e rima visual): o slide de dados, com o número de pacientes, a diferença, o valor de p e o intervalo, na mesma linha gráfica do resto do material. Ele paga o que a tela anterior armou e vira a referência para a pergunta do fim.
Os números continuam todos ali, no slide de dados, no material de apoio e no backup. O que mudou foi a divisão de trabalho entre a tela e a voz, e a plateia passou a receber duas informações por momento no lugar de uma.
Quando o comitê exige o slide institucional completo.
Em farma essa tela existe e tem razão de existir. Informação de segurança, referência completa, declaração de conflito de interesse, identidade visual da companhia. Ela cumpre obrigação regulatória, e permanece inteira em tudo o que esta página propõe.
A saída prática separa dois tipos de tela. O slide de registro cumpre a obrigação e fica completo, do jeito que foi aprovado. O slide de leitura carrega o argumento, com as cinco decisões aplicadas. Uma apresentação de quinze minutos comporta os dois tipos convivendo, desde que cada um saiba qual é a sua função.
Três movimentos que fazem os dois tipos conviverem
- Nomear o slide de registro em voz alta. Uma frase resolve: esta tela é o registro completo, a referência está aqui e ela vai no material. A sala para de tentar ler e volta para a fala.
- Mandar para o backup o que é aprofundamento. Tabela completa, análise de subgrupo e revisão de literatura continuam no arquivo aprovado, depois da última tela. Informação de segurança, referência e declaração de conflito de interesse ficam onde a regra da companhia manda, e essa posição não entra na conta da narrativa.
- Levar a versão de leitura junto na submissão. O comitê decide sobre o que recebe. Submeter o slide de registro e o slide de argumento no mesmo pacote põe as duas formas na mesa do time médico, que arbitra pela regra da companhia.
Em oficina, o que costuma faltar é a conversa com o time médico antes da submissão. Quando ela acontece cedo, a regra da companhia entra no desenho da tela em vez de chegar como correção depois.
O que ler depois.
O que costumam perguntar sobre slide.
Minha apresentação tem slide demais. Quantos eu corto?
A conta começa pelas palavras por tela, e o número de slides sai dela. Com 5 a 9 palavras por momento, cada tela sustenta uma ideia, e a quantidade de telas passa a espelhar a quantidade de ideias da fala. Cortar slides antes dessa decisão arranca pedaço de argumento junto. Reescreva as três telas mais cheias primeiro e refaça a contagem depois.
Slide bonito precisa ser slide cheio?
A densidade cumpre uma função real, que é deixar o dado disponível para conferência na hora. Ela cobra o preço na atenção, porque a plateia lê mais rápido do que o palestrante fala e termina de ler antes. Uma tela enxuta com imagem de duplo sentido entrega o mesmo rigor e deixa o dado completo para o slide de referência, para o material de apoio e para o backup.
O comitê exige o slide institucional completo. Dá para aplicar isso mesmo assim?
Dá, separando o slide de registro do slide de leitura. O de registro fica completo, do jeito que foi aprovado, e o palestrante diz em voz alta que aquela tela é registro. O de leitura carrega o argumento com poucas palavras. A decisão sobre o que sobe é do comitê. Submeter os dois formatos no mesmo pacote dá a ele a escolha por escrito.
Não sou designer. Consigo aplicar sozinho?
As cinco decisões são de conteúdo, e quatro delas se resolvem escrevendo. Escolher a imagem, contar as palavras, decidir o que a fala carrega sozinha e conferir se uma tela dialoga com a outra dependem de critério escrito. O acabamento visual melhora com um designer ao lado, e ele entra depois das cinco decisões, sobre um material que já sabe o que quer dizer.
A tela mais cheia do seu material é o melhor lugar para começar.
Nela, contar as palavras, cortar até chegar perto de seis ou sete e escrever ao lado o que a fala vai carregar naquele momento já mostra o tamanho do trabalho que falta, e na maioria dos casos ele é menor do que parecia.
Para quem monta o simpósio e quer desenhar isso com o palestrante, a Anamnese Estratégica é uma conversa de 30 minutos sobre o caso específico.