Talk de Midas Pharma · Os trinta segundos

Como começar uma palestra sem "bom dia, meu nome é"

Começar uma palestra sem "bom dia, meu nome é" é uma decisão de ordem. Os trinta primeiros segundos decidem o contrato de escuta, e eles rendem mais numa pergunta aberta, num caso clínico sem desfecho ou num dado que contraria a intuição da plateia. Nome e instituição continuam inteiros, no bloco logo depois da abertura, e a declaração de conflito de interesse se lê inteira, na forma e no momento que o evento determina.

Ver as cinco aberturas
A entrada

Os trinta primeiros segundos decidem o contrato de escuta.

No começo de uma fala a plateia responde uma pergunta silenciosa: vale a pena prestar atenção nisto? A resposta sai rápido, e ela organiza o resto da sessão. Quem decidiu escutar acompanha uma passagem densa com paciência. Quem decidiu o contrário volta ao celular na primeira curva difícil, e o material bom que vem depois chega a uma sala já dispersa.

A abertura padrão gasta esse tempo em informação de crachá. Bom dia, meu nome, minha instituição, a agenda da fala. Tudo verdadeiro, e nada disso responde à pergunta silenciosa da sala. O congresso inteiro abre assim, e a plateia aprendeu a usar esse trecho para conferir mensagens. A declaração de conflito de interesse é outra coisa: obrigação do evento e do patrocinador, cumprida pelo relógio que a organização define.

Na Rota dos Aplausos, o mnemônico A.P.L.A.U.S.O.S. que ordena os oito momentos de uma fala, o primeiro se chama Atenção, e é ele quem faz esse trabalho. Ele vem da estrutura de roteiro em oito passos que nós usamos desde os primeiros trabalhos, os 8 Passos do Palacios.

O protocolo continua inteiro. A única coisa que muda é a posição dele na fala.

O molde da entrada

Cinco aberturas que funcionam em congresso médico.

A técnica que sustenta as cinco tem nome no nosso método: Abertura intrigante, a segunda das 7 Chaves do Cofre, as sete peças que fazem uma história sobreviver à sala. A chave pede uma só coisa da primeira frase, que ela abra uma pergunta na cabeça de quem escuta. As cinco formas abaixo são as que mais aparecem em fala científica, com o exemplo escrito por extenso e o tipo de fala em que cada uma cabe.

Abertura 01

A pergunta que a sala ainda não resolveu

Uma pergunta aberta sobre algo que a plateia discute entre si e ainda decide caso a caso. Ela funciona porque coloca a sala a responder por dentro antes de qualquer slide.

"Quantos dos seus pacientes que saíram daqui com receita de anti-hipertensivo ainda estarão tomando o remédio daqui a seis meses? Cada um de vocês tem um número na cabeça agora. Eu vou mostrar o nosso."

Cabe em tema com divergência de conduta entre serviços
Abertura 02

O caso clínico de uma frase, sem desfecho

Um paciente, uma situação, nenhuma conclusão. A abertura entrega o começo da história e guarda o fim para depois, o que mantém a sala esperando o retorno.

"Um homem de 62 anos, três internações no último ano, chegou ao pronto-socorro com a lista de medicamentos escrita à mão pela filha. Eu volto a ele no fim desta fala."

Cabe em sessão de casos e em tema de manejo ou transição de cuidado
Abertura 03

O dado que contraria a intuição da própria plateia

A abertura nomeia em voz alta o que a sala acredita, e avisa que o dado veio diferente. A curiosidade nasce da distância entre as duas coisas.

"Se eu perguntasse agora qual é o principal motivo de abandono do tratamento no nosso serviço, a maioria desta sala responderia custo. Nos dados que eu trouxe, custo aparece em terceiro."

Cabe em apresentação de resultado de estudo ou de dado de serviço
Abertura 04

A cena da prática

Um momento concreto do ambulatório, do centro cirúrgico ou da enfermaria, com dia da semana e detalhe físico. A cena põe a plateia dentro de um lugar que ela conhece.

"Terça-feira de manhã, no ambulatório, quatro pacientes seguidos me pediram a mesma coisa antes de qualquer exame: um horário de retorno que coubesse no trabalho deles."

Cabe em aula para residentes e em fala sobre organização do cuidado
Abertura 05

A declaração de aposta

O palestrante diz de saída o que vai defender e assume o ônus de provar. A sala escuta o resto como quem confere uma tese, com a atenção que a discordância mobiliza.

"Nos próximos quinze minutos eu vou defender que o nosso protocolo de retorno está desenhado para a agenda do hospital e contra a rotina do paciente. Quem discordar no fim, eu quero ouvir no microfone."

Cabe em mesa-redonda e em fala de posicionamento
A objeção legítima

Onde o protocolo entra, sem custar a atenção de entrada.

O que o protocolo cumpre

Nome, instituição e declaração de conflito de interesse são obrigatórios em evento científico e em evento patrocinado. Eles identificam quem fala, dão à plateia o lastro institucional do que vem a seguir e tornam pública a relação do palestrante com quem financia. A exigência é legítima e permanece inteira. O que muda é a posição dela na fala. A forma, o momento e o conteúdo da declaração seguem as regras do evento e do patrocinador, e essas regras vencem qualquer preferência de roteiro.

A posição que resolve

A fala passa a ter dois blocos de entrada, nesta ordem. O primeiro bloco é a abertura, de trinta segundos, que abre a pergunta e ganha a escuta. O segundo bloco é o protocolo, com nome, instituição, declaração de conflito de interesse e, se o evento pedir, a agenda da apresentação. A sala escuta o segundo bloco inteiro, porque já decidiu ficar.

A frase de ponte entre os dois

Uma linha só liga a abertura ao protocolo, e ela evita a sensação de recomeço. Algo na medida de "antes de eu voltar a esse caso, o que a organização pede que eu declare". A ponte devolve o protocolo ao lugar de formalidade cumprida, com a curiosidade da abertura ainda aberta e esperando resposta.

Quando o evento exige a declaração no primeiro slide

Vários congressos pedem a declaração de conflito de interesse como primeira tela, e essa regra vence. A declaração se lê inteira, em voz alta, com a tela no telão e a sala em silêncio, porque uma declaração dita por cima de outra coisa é declaração perdida. A abertura de trinta segundos entra logo depois dela, e continua fazendo o trabalho dela no bloco seguinte.

O trecho que se decora

A abertura se escreve palavra por palavra e se decora.

O corpo de uma apresentação se conduz pelo roteiro, com a fala nascendo na hora a partir de pontos decididos antes. A abertura recebe tratamento diferente. Ela é o trecho em que a improvisação custa mais caro, porque acontece no minuto de maior adrenalina e diante de uma sala que ainda está formando julgamento. Trinta segundos escritos por extenso e memorizados resolvem esse ponto de fragilidade. A outra frase que se escreve por extenso é a última, e ela se decide antes de tudo, no roteiro.

A régua de tamanho é o cronômetro. Três a cinco linhas escritas, lidas em voz alta com o relógio na mão. Passou de trinta segundos, o corte começa pelas orações explicativas, que são as primeiras a sobrar em toda abertura. O texto final precisa caber na respiração de quem fala, então o ajuste acontece de pé e em voz alta, com o cronômetro rodando.

A prova de que a abertura funciona é externa. Diga as suas três a cinco linhas para um colega que desconhece o tema e pergunte a ele que dúvida ficou na cabeça. Se a resposta nomear a pergunta que você queria abrir, a abertura está pronta. Se a resposta for um resumo do assunto, a abertura entregou informação e deixou a pergunta fechada.

Em oficina com médicos, o padrão que nós observamos é consistente: quem decora só a abertura chega ao segundo bloco com a voz assentada. É observação de prática colhida em oficina, e vale como ordem de grandeza.

Decorar a apresentação inteira produz recitação. Decorar trinta segundos produz entrada firme e deixa o resto livre para acontecer diante da sala.

Onde esta régua para. Ela ganha a escuta dos primeiros trinta segundos, e material sem tese, sala hostil ao tema ou tempo de fala cortado no dia se resolvem antes, no roteiro e com a comissão científica.

Perguntas

O que costumam perguntar sobre a abertura.

O congresso obriga a começar com nome, instituição e conflito de interesse. Dá para abrir de outro jeito?

Dá, e o protocolo sai inteiro. Nome, instituição e declaração de conflito de interesse continuam obrigatórios em evento científico e em evento patrocinado, e a identificação cabe no segundo bloco da fala, logo depois de uma abertura de trinta segundos. A forma e o momento de declarar seguem as regras do evento e do patrocinador, e essas regras vencem sempre. Quando a organização pede a declaração já no primeiro slide, ela se lê inteira, em voz alta, e a abertura de trinta segundos entra logo depois dela.

Quanto tempo deve durar a abertura?

Trinta segundos é a régua prática, o que dá de três a cinco linhas escritas. Uma abertura de mais de um minuto vira um bloco de conteúdo, e ela passa a competir com o corpo da apresentação. Cronometrar em voz alta resolve a dúvida em duas tentativas.

E se eu abrir com uma pergunta e ninguém responder?

A pergunta de abertura funciona respondida por dentro. Formule para pensamento, com uma frase que assuma a resposta em seguida, e a sala fica com a curiosidade sem o constrangimento do silêncio. Pedido explícito de levantar a mão pede outro tipo de pergunta e outro momento da fala.

Preciso de uma abertura nova para cada palestra?

O tipo de abertura se repete, e a redação muda. Um palestrante costuma ter dois ou três tipos com os quais se sente confortável, e usa sempre esses, com material novo a cada tema. O que envelhece rápido é a mesma frase contada para a mesma plateia em dois eventos seguidos.

Próximo passo

A sua abertura cabe em até cinco linhas.

Pegue a próxima apresentação da sua agenda, escolha entre as cinco aberturas a que combina com o material que você já tem e escreva as três a cinco linhas por extenso. Leia em voz alta com cronômetro. O protocolo entra na linha seguinte, com nome, instituição e declaração de conflito de interesse inteiros.

Ver as três frentes do preparo

Para quem monta o simpósio e quer desenhar a abertura com o palestrante, a Anamnese Estratégica é uma conversa de 30 minutos sobre o caso específico.

Fernando Palacios Fundador da Storytellers e 2x World's Best Storyteller, World HRD Congress, Mumbai, 2017 e 2018.