Talk de Midas Pharma · Camada do roteiro

Roteiro de palestra passo a passo

Um roteiro de palestra cabe em uma folha e se escreve antes do primeiro slide. É uma folha A4 dobrada em oito quadrantes, um por momento da fala, com o cabeçalho na margem: a frase-alvo, a plateia, o tempo e o formato, o dado âncora e a fonte. Preenchida, a folha vira o instrumento que torna barato cortar tempo, trocar de plateia e reaproveitar a mesma fala.

Ver a folha, quadrante a quadrante
A conta do preparo

A folha encurta o preparo porque decide antes de desenhar.

A objeção mais honesta contra escrever roteiro tem a ver com agenda. Quem já está com o congresso marcado escuta "escreva um roteiro" e ouve mais uma tarefa empilhada sobre as que já existem. A conta real anda na direção oposta, e ela é fácil de conferir na próxima apresentação.

Sem a folha, cada decisão de conteúdo acontece dentro do arquivo de slides, onde ela custa layout. Trocar a ordem de dois argumentos vira arrastar seis telas. Cortar cinco minutos vira apagar slides e torcer para o argumento sobreviver. A revisão do chefe de serviço chega, e chega em cima de material já formatado.

Com a folha, essas mesmas decisões acontecem em texto corrido, onde mudar de ideia custa uma linha riscada. O arquivo de slides abre depois, com o conteúdo resolvido e sabendo o que precisa carregar. O ganho vem de decidir uma vez, no lugar barato, e desenhar uma vez só.

100+ workshops de preparo em que Fernando Palacios observou o mesmo efeito, com o tempo de apresentação caindo perto de 80% quando o material já existia. Isso vale como observação clínica de prática, e não como estudo controlado. O número descreve o que nós vemos acontecer em oficina com médicos e times de empresa, sem grupo de comparação e sem medição padronizada. Serve como ordem de grandeza do efeito, e não como garantia de resultado.
O instrumento, escrito por extenso

Uma folha A4, três dobras, oito quadrantes.

Nós chamamos esse instrumento de Una Hoja, o roteiro de apresentação em uma folha. É uma folha A4 dobrada em oito quadrantes físicos, um quadrante por momento da fala, e ela permite ver a estrutura inteira antes de escrever. É o que sai da oficina na mão do palestrante. Os oito títulos em uma folha em branco já são o instrumento.

Antes de dobrar, quatro linhas na margem seguram o contexto: a frase-alvo, a plateia, o tempo e o formato, o dado âncora e a fonte. A lista de corte fica no pé da mesma margem, e cresce enquanto a folha se preenche. Depois disso a folha dobra, e cada quadrante recebe um momento.

Os oito quadrantes são os 8 Passos do Palacios, a estrutura de roteiro em oito passos que dá nome a cada momento da fala, na ordem da Rota dos Aplausos, o mnemônico A.P.L.A.U.S.O.S. que ordena os oito momentos na hora de apresentar. Cada momento está aberto um a um, com o erro mais comum de cada um, na peça sobre atenção de plateia, e a ordem inversa de construção está na peça sobre estrutura de palestra médica.

O cabeçalho, escrito na margem antes de dobrar

As quatro linhas do cabeçalho da folha, com a instrução de preenchimento e um exemplo em cada
Linha do cabeçalho Como preencher Exemplo
01. A frase-alvo Uma linha só, com as palavras que a plateia usa, dizendo o que ela precisa conseguir repetir uma semana depois. Passou de vinte palavras, há mais de uma ideia disputando a linha. "O que decide a adesão no nosso ambulatório acontece na segunda consulta."
02. A plateia Quem está na sala, pelo nome do ofício, e o que essa pessoa consegue fazer na segunda-feira com o que ouviu. Plateia sem verbo é plateia genérica. Clínicos de hospital de médio porte, que conseguem redesenhar a agenda de retorno com a equipe que já têm.
03. O tempo e o formato Minutos reais no palco, posição na grade e o que vem depois: mesa-redonda, perguntas abertas, sessão de pôster. O que vem depois muda o trabalho da última frase. 15 minutos de fala, terceira de quatro, com mesa-redonda de 20 minutos no fim.
04. O dado âncora e a fonte Um número que a fala inteira sustenta, com a fonte escrita ao lado dele na própria margem: estudo, casuística ou registro do serviço, com período e n. Dado sem fonte na folha vira dado sem fonte no palco. Registro do próprio ambulatório, doze meses, n e período declarados no slide e ditos em voz alta.

Os oito quadrantes, um por momento da fala

Os oito quadrantes da folha dobrada, um por momento da fala, com a instrução de preenchimento e um exemplo em cada
Quadrante Como preencher Exemplo
1. Atenção A primeira frase, escrita palavra por palavra, do jeito que sai da boca. É um dos dois trechos que se decoram, porque os trinta primeiros segundos decidem o contrato de escuta. "O caso que abre esta fala voltou ao pronto-socorro três vezes antes de alguém olhar a agenda dele."
2. Provocação A inquietação que a plateia reconhece como dela antes de ver qualquer resultado. Uma linha basta, e ela precisa caber na rotina de quem está sentado. Quantos pacientes assim cada um da sala teve no último mês.
3. Luta O dado que nomeia o problema de raiz, em uma frase dita de cabeça, sem tabela na tela. É o número que faz a sala reconhecer o próprio serviço no assunto. A taxa de retorno do próprio serviço, lida em voz alta antes de qualquer conclusão.
4. Amplificação O que acontece com o paciente e com a rotina do serviço se a conduta atual permanecer. O custo escrito aqui é o que sustenta a escolha do quadrante seguinte. O custo de manter o fluxo de marcação como está, em desfecho e em agenda.
5. Ultimato A escolha difícil posta na mesa, com as duas saídas e o preço de cada uma. É o quadrante mais curto de escrever e o mais decisivo de dizer. Mudar a marcação com a equipe atual, ou ampliar o ambulatório e esperar orçamento novo.
6. Saída A resposta, revelada depois que a sala sentiu a escolha. Uma linha, com o achado próprio desta fala, a informação que a plateia não traria de casa. A ligação de quarenta segundos que a secretária faz na véspera do retorno.
7. Operação Como a saída funciona na prática, com o corpo probatório junto: desenho, amostra, desfechos, segurança e limitações. É aqui que a plateia ganha com que defender a decisão na discussão de caso da semana seguinte. O fluxo novo em três passos, com o n e o período do registro ditos em voz alta.
8. Sentido A última frase, palavra por palavra, escrita antes de todo o resto. Ela carrega o benefício para quem escuta e precisa sobreviver ao "obrigado, alguma pergunta?". "A segunda consulta já está na sua agenda. O que muda é a pergunta que você faz nela."

O que esta frente não resolve: fala que chega sem dado próprio. Onde o palestrante não tem casuística, registro de serviço ou caso da própria prática, a estrutura organiza e não inventa conteúdo.

A folha inteira, de uma vez

Um simpósio de 15 minutos, com a folha inteira escrita.

O exemplo abaixo é uma montagem de oficina, escrita para esta página. A cardiologista, o serviço e os números não são de um caso real.

Uma cardiologista tem 15 minutos num simpósio de sábado de manhã, terceira de quatro palestrantes, com mesa-redonda no fim. O tema dela é o paciente que desaparece entre a alta e o retorno. A folha preenchida fica assim, com o cabeçalho e os oito quadrantes na ordem em que ela escreveu.

Cabeçalho 01, frase-alvo

"O paciente que some entre a alta e o retorno é o nosso maior problema de desfecho, e ele se resolve na marcação."

Cabeçalho 02, plateia

Cardiologistas e clínicos de hospital de médio porte. Conseguem mudar o fluxo de marcação sem pedir orçamento novo.

Cabeçalho 03, tempo e formato

15 minutos, terceira de quatro palestrantes, mesa-redonda de 20 minutos no fim, sem perguntas durante a fala.

Cabeçalho 04, dado âncora e fonte

Registro do próprio serviço, doze meses, n declarado no slide e dito em voz alta dentro da Luta.

Quadrante 1, Atenção

"O senhor da cadeira três voltou ao pronto-socorro três vezes antes de alguém olhar a agenda dele."

Quadrante 2, Provocação

Quantos pacientes assim cada um da sala teve no mês passado.

Quadrante 3, Luta

A taxa de retorno do serviço, lida em voz alta antes de qualquer conclusão.

Quadrante 4, Amplificação

O custo de manter o fluxo de marcação como está, em desfecho e em agenda.

Quadrante 5, Ultimato

Mudar a marcação com a equipe atual, ou ampliar o ambulatório e esperar orçamento.

Quadrante 6, Saída

A ligação de quarenta segundos que a secretária faz na véspera do retorno.

Quadrante 7, Operação

O fluxo novo em três passos, com a vaga que ele devolve por mês e o n do registro.

Quadrante 8, Sentido

"A ligação custa quarenta segundos. A vaga que ela devolve custa um mês."

Pé da margem, a lista de corte

Fora: a revisão de literatura, a análise de subgrupo por faixa etária e o slide de agradecimento institucional.

A folha inteira levou meia hora de caneta. O arquivo de slides abriu depois, com o conteúdo já decidido, e cada tela nasceu para carregar uma coisa que a folha pediu. O slide da Luta ficou com o número e a fonte, e mais nada. O slide da Saída ficou com a imagem do fluxo novo, e a explicação ficou na boca dela.

Depois da estreia

A mesma folha atravessa o corte de tempo e a troca de plateia.

Quando o tempo cai de 15 para 8 minutos

O corte começa na linha do tempo e do formato, no cabeçalho, e desce para os quadrantes. Os oito momentos continuam, com menos linha em cada um, e o que sai desce para a lista de corte, no pé da margem, por escrito. Quem corta apagando slide arranca pedaço de argumento junto, porque o slide guarda conteúdo e layout na mesma peça. Na folha, o corte acontece antes do desenho, e ele custa uma linha riscada.

Quando a plateia muda

Reescreva a linha da plateia e leia a folha inteira de novo com a plateia nova na cabeça. Três coisas costumam se mover. A última frase, porque o benefício muda de dono. A Operação, porque o fundamento que convence um gestor tem outra moeda que o de um clínico. E a lista de corte, porque o que era secundário para uma sala pode ser o miolo da outra. O dado âncora quase sempre fica onde está.

Quando o congresso seguinte chega

A folha guardada é o que sobrevive do trabalho. Seis meses depois, o arquivo de slides está desatualizado e pesado, e a folha continua legível em trinta segundos. Atualiza o dado âncora, confere a frase-alvo contra o tema do evento novo, e a fala volta a existir em uma tarde.

Perguntas

O que costumam perguntar antes de escrever a primeira folha.

Roteiro de palestra é coisa de ator?

Roteiro aqui quer dizer a ordem das decisões de uma fala: o que entra, em que sequência, com qual dado e com qual frase final. O ator decora o texto inteiro. Quem usa a folha decora duas frases, a primeira e a última, e fala o resto com o repertório que já tem. A folha organiza a decisão, e a fala continua sendo do médico.

Quanto tempo leva para escrever a folha?

Entre vinte e quarenta minutos na primeira vez, e menos na segunda. Esse tempo sai do preparo e volta na montagem, porque cada tela do arquivo de slides abre já sabendo o que precisa carregar. A conta que costuma pesar é a inversa: preparar dentro do arquivo de slides cobra retrabalho a cada revisão que chega.

Preciso decorar o roteiro inteiro?

Duas frases. A primeira, porque os trinta segundos iniciais decidem o contrato de escuta e tropeçar ali custa caro. A última, porque ela é o que sai da sala com a plateia. Os oito momentos do meio funcionam como pontos de rota, e falar em cima deles mantém a fala viva diante de uma sala real.

A mesma folha serve para 15 minutos de simpósio e para uma aula de uma hora?

Serve, e o que muda é a densidade de cada quadrante. Em 15 minutos, cada quadrante vira uma linha e a lista de corte fica longa. Em uma hora, os quadrantes ganham caso e exemplo, e a lista de corte encolhe. As quatro linhas do cabeçalho e os oito quadrantes seguem iguais em qualquer relógio.

Próximo passo

Os campos que decidem o resto são a frase-alvo, a primeira frase e a última.

Com esses três no papel, o resto da folha vira preenchimento. A frase-alvo mora na margem, a primeira frase no quadrante da Atenção e a última no quadrante do Sentido, e é nessa ordem que a folha costuma nascer.

Ver as três frentes do preparo

Para quem monta o simpósio e quer desenhar a folha junto com o palestrante, a Anamnese Estratégica é uma conversa de 30 minutos sobre o caso específico.

Fernando Palacios Fundador da Storytellers e 2x World's Best Storyteller, World HRD Congress, Mumbai, 2017 e 2018.