Talk de Midas Pharma · Condução

Como moderar uma mesa redonda científica

Moderar uma mesa redonda é fazer a discussão acontecer. O ofício tem seis decisões: preparar a pergunta que só aquela mesa responde, combinar as regras no bastidor, abrir pela pergunta, cruzar as falas dos participantes, chamar quem está calado e fechar com a síntese. Apresentar quem fala ocupa o primeiro minuto do trabalho.

Ver as seis decisões
O que a sala espera de quem conduz

A mesa que vira leitura de currículo.

A cena é conhecida. O moderador lê o mini currículo do primeiro convidado, passa a palavra, agradece, lê o segundo currículo, passa a palavra, olha o relógio, agradece, e a mesa acaba. Cada um deu uma palestra curta, ninguém falou com ninguém, e a plateia assistiu a três apresentações emendadas.

Quem faz isso costuma estar sendo prudente. O convite para moderar chega sem manual, muitas vezes com um dia de antecedência, e o protocolo parece o terreno seguro. O protocolo é realmente seguro, e ele entrega a única coisa que a mesa redonda tem de diferente de três palestras seguidas.

O que a plateia foi ver ali é o atrito. Ela quer saber onde essas pessoas discordam, o que uma faria que a outra não faria e por quê. Produzir esse atrito, com cuidado e sem constrangimento, é o trabalho.

Antes de a mesa começar

Duas horas de preparo resolvem a maior parte.

01

A pergunta que só aquela mesa responde

Leia o que cada participante publicou ou vai apresentar e escreva uma pergunta que dependa daquelas pessoas específicas para ser respondida. Se a pergunta serviria a qualquer painel do congresso, ela ainda está larga.
02

O combinado no bastidor

Cinco minutos com cada convidado antes de subir. Diga o tempo de cada bloco, como você vai sinalizar o fim, que você pode interromper e que isso já está perdoado. Toda a dificuldade do corte se resolve nessa conversa.

Estas duas decisões acontecem fora da sala e determinam quase tudo o que acontece dentro dela. O moderador que chega sem elas passa a mesa inteira administrando relógio.

Durante a mesa

Seis movimentos que fazem a discussão andar.

A pergunta de abertura

Uma só, feita à mesa inteira, que exige posição antes de exigir explicação. "O que muda na sua conduta a partir deste dado?" põe todo mundo em jogo no primeiro minuto.

A pergunta que aprofunda

Depois da primeira resposta, o moderador pede o critério: "o que faria você decidir o contrário?". A segunda camada é onde a discussão começa a valer o tempo da plateia.

A pergunta que cruza

Pedir a um participante que responda ao outro, com nome e conteúdo. É o movimento que transforma três monólogos paralelos em uma conversa, e é o que a plateia veio ver.

A devolução ao silencioso

Todo painel tem alguém que ainda não falou. Chamar essa pessoa com uma pergunta específica, e não com um convite genérico, costuma render a fala mais afiada da mesa.

O corte combinado

Interromper fica fácil quando o combinado foi feito antes. "Vou te cortar em dois minutos, e você me perdoa desde já" dito no bastidor evita todo o constrangimento na hora.

A síntese final

O fecho nomeia o que a mesa produziu: os pontos de acordo, o desacordo que sobrou e a pergunta que fica aberta. Sem isso a plateia sai com fragmentos.

Os seis se apoiam na mesma habilidade: escutar a resposta inteira antes de decidir o próximo movimento. Moderador que já sabe a próxima pergunta enquanto o convidado ainda fala perde exatamente o momento em que a discussão poderia ter virado.

O fecho

O que a plateia leva embora.

Os últimos dois minutos valem por metade da mesa. Uma síntese boa faz três coisas: nomeia onde houve acordo, nomeia o desacordo que permaneceu de pé e deixa registrada a pergunta que a mesa não resolveu. Quem faz isso entrega uma conclusão a quem assistiu.

A síntese se prepara durante a discussão, com anotação curta. Três palavras por participante bastam. Sem essa anotação, o fecho vira agradecimento, e o agradecimento é o modo mais educado de terminar sem dizer nada.

Uma mesa redonda bem conduzida produz algo que nenhuma das falas individuais teria produzido sozinha. Esse produto é responsabilidade de quem modera.

Se a mesa é sua e a dúvida é anterior à técnica, o assunto muda de lugar. A peça sobre o palco dividido trata do que acontece com quem foi formado para a sala própria e recebe uma sala de outra pessoa.

Perguntas

O que costumam perguntar sobre moderação.

O que o moderador de uma mesa redonda científica faz de fato?

Ele faz a discussão acontecer. Isso inclui preparar a pergunta central antes do evento, abrir com ela, cruzar as falas dos participantes, chamar quem ainda não falou, administrar o tempo pelo combinado feito no bastidor e fechar com uma síntese do que a mesa produziu. Apresentar os participantes é o primeiro minuto do trabalho, e o trabalho continua depois disso.

Quanto tempo de preparo uma moderação pede?

Menos do que parece, desde que o preparo seja o certo. Ler o material dos participantes, escrever a pergunta central e combinar as regras com cada um em conversa curta costuma resolver. O que consome tempo é preparar comentário próprio sobre cada tema, e isso é justamente o que a mesa não precisa do moderador.

O moderador pode dar a própria opinião?

Pode, em dose pequena e a serviço da discussão. Uma posição própria bem colocada provoca reação e melhora a mesa. O risco aparece quando o moderador vira o oitavo participante: a sala perde quem estava garantindo que todos falassem, e a discussão passa a girar em torno de quem detém o microfone.

Como cortar alguém que está falando demais sem criar constrangimento?

Combinando antes. Uma frase no bastidor com cada participante resolve quase todos os casos: avise que você vai sinalizar aos dois minutos e cortar aos três, e peça licença desde já. Na hora, corte pelo conteúdo em vez de cortar pelo relógio: retome a última frase da pessoa, agradeça e passe a bola nomeando quem responde.

E quando os participantes concordam em tudo?

A concordância costuma ser um sintoma de pergunta larga demais. Perguntas amplas produzem consenso educado. Pergunta estreita produz posição: em vez de perguntar o que cada um pensa sobre o tema, pergunte o que cada um faria diante de um caso específico, com as variáveis fixadas. A divergência aparece nas bordas da decisão, quase nunca no princípio geral.

Próximo passo

A próxima mesa começa pela pergunta.

Escreva a pergunta central antes de ler qualquer currículo, e faça a conversa de bastidor com cada convidado. Estas duas coisas cabem em duas horas e mudam a mesa inteira. O mapa dos outros formatos está aberto, com o preparo comum aos sete.

Ver o mapa dos formatos

Para quem monta a grade e quer desenhar o preparo dos moderadores junto com o time, a Anamnese Estratégica é uma conversa de 30 minutos sobre o caso específico.

Fernando Palacios Fundador da Storytellers, primeira empresa de storytelling do Brasil, e 2x World's Best Storyteller, World HRD Congress, Mumbai, 2017 e 2018.