Compliance e IA em conteúdo médico
A regra prática nasce dentro de cada empresa, e o setor dá os trilhos. A federação internacional da indústria farmacêutica publicou princípios de uso ético de inteligência artificial em julho de 2022, e o documento declara que existe para as organizações considerarem, adaptarem e operacionalizarem internamente. A associação brasileira da indústria farmacêutica de pesquisa internalizou esses princípios e publica a versão em português. Quatro cadeiras decidem, e seis perguntas resolvem o caso concreto.
A pergunta tem dono, e ele fica dentro da sua empresa.
A dúvida costuma chegar formulada como pergunta de setor: o que a indústria permite quando um porta-voz usa inteligência artificial para preparar material científico. Ela é razoável, porque em farma quase tudo tem regra de setor.
A própria fonte setorial responde onde a regra mora. Os princípios de uso ético de inteligência artificial publicados pela federação internacional da indústria farmacêutica declaram, no próprio texto, que existem para ser considerados, adaptados e operacionalizados por cada organização. Eles são orientações não vinculantes, e a associação brasileira que os internalizou usa exatamente essa formulação para os guias que publica.
Isso encurta o caminho. A resposta aplicável ao seu caso está na política interna da sua empresa, e a primeira providência é perguntar se ela já existe. Em muitas organizações da área de saúde ela existe, foi publicada e quase ninguém fora de compliance leu.
Há uma segunda camada, independente da primeira: o regulamento do congresso para o qual o material vai. Sociedades científicas e organizadores vêm publicando orientações próprias sobre uso de inteligência artificial em resumo, pôster e apresentação. As duas camadas se somam, e o material precisa passar pelas duas.
Esta página mapeia a pergunta e mostra a quem levá-la. A resposta que vale para o seu caso sai do compliance da sua empresa e do regulamento do seu evento.
Quem costuma ter voz nessa decisão.
A distribuição varia de empresa para empresa. O que se repete é o conjunto de perguntas que cada cadeira faz, e saber isso encurta a conversa interna.
Medical affairs
Responde pela acurácia científica do que a empresa apoia. É a cadeira que costuma julgar se o material gerado sustenta a evidência que ele afirma sustentar, e se a fonte de cada dado voltou ao lugar.
Acurácia do conteúdoCompliance e ética
Responde pela conformidade com o código de conduta da empresa e da associação a que ela pertence. É a cadeira que sabe se já existe orientação interna escrita sobre uso de inteligência artificial, e qual é o texto dela.
Conformidade com o código internoJurídico
Responde por propriedade intelectual, dados pessoais e uso de ferramenta de terceiro com material confidencial. A pergunta prática costuma ser onde o conteúdo inserido na ferramenta fica armazenado e o que o contrato permite.
Contrato, dado e propriedadeAssuntos regulatórios
Responde quando o conteúdo toca indicação, posologia, bula ou qualquer afirmação sujeita à regra do produto. É a cadeira que muda a conversa inteira quando o material sai do território científico.
A fronteira do que é promocionalSeis perguntas que resolvem o caso concreto.
- Já existe orientação escrita aqui dentro? A primeira pergunta é de sonda, e ela evita a maior parte do trabalho. Muitas organizações da área de saúde já publicaram política interna sobre uso de inteligência artificial. Comece perguntando ao compliance da sua empresa se ela existe e qual é o texto vigente.
- O que exatamente foi inserido na ferramenta? Dado de paciente, resultado não publicado, material sob acordo de confidencialidade e documento regulatório em análise têm tratamento próprio em qualquer política. A resposta a esta pergunta costuma decidir sozinha se o uso foi trivial ou se ele precisa de conversa.
- O conteúdo é científico ou promocional? A fronteira muda o conjunto de regras aplicáveis, e ela é anterior à discussão sobre ferramenta. Material que fala de indicação, comparação de produto ou benefício entra num regime diferente de material que discute evidência. Quem responde essa pergunta é a área regulatória, e vale respondê-la antes de qualquer outra.
- Quem revisou e assina? Toda política que existe converge nesse ponto: a responsabilidade acompanha quem revisou, aprovou e apresentou. Deixar esse nome explícito no fluxo interno resolve a maior parte da dúvida sobre autoria.
- A fonte de cada dado voltou ao material? Ferramentas de IA generativa podem produzir referências plausíveis e inexistentes. Conferir estudo, ano e desenho na fonte original é procedimento de acurácia científica que já existia antes da ferramenta, e ele se aplica igual.
- O congresso tem regra própria? Sociedades científicas e organizadores de congresso vêm publicando orientações sobre uso de inteligência artificial em submissão de resumo, pôster e apresentação. Vale conferir o regulamento do evento específico antes do envio, porque ele é independente da política da empresa.
As fontes desta página, com data.
O que costumam perguntar sobre IA e compliance.
Compliance permite usar IA em conteúdo médico?
A resposta é da sua empresa. A federação internacional da indústria farmacêutica publicou princípios de uso ético de inteligência artificial em julho de 2022, e o próprio documento declara que existe para as organizações considerarem, adaptarem e operacionalizarem internamente. A associação brasileira da indústria farmacêutica de pesquisa internalizou esses princípios e publica a versão em português no próprio site. O setor dá os trilhos, e a regra prática nasce dentro de cada empresa.
Quem decide isso dentro da empresa?
Quatro cadeiras costumam ter voz: medical affairs pela acurácia científica, compliance pela conformidade com o código interno, jurídico por dado e contrato, e assuntos regulatórios quando o conteúdo toca indicação ou bula. A ordem prática começa em compliance, porque é a cadeira que sabe se já existe política escrita.
Se a IA escreveu, de quem é a responsabilidade?
De quem revisou, aprovou e apresentou. Toda política publicada até aqui converge nesse ponto: a ferramenta participa do processo, e a responsabilidade acompanha a assinatura humana. É o mesmo desenho que já vale para material produzido por agência, por equipe interna ou por redação de apoio.
O que muda entre conteúdo científico e promocional?
Muda o conjunto de regras aplicáveis, e a distinção é anterior à discussão sobre ferramenta. Material que discute evidência tem um regime; material que fala de indicação, comparação de produto ou benefício tem outro, com revisão específica. Responder a essa pergunta primeiro simplifica todas as outras.
Preciso declarar o uso de IA na submissão de um congresso?
Depende do regulamento daquele congresso, que é independente da política da sua empresa. Sociedades científicas e organizadores vêm publicando orientações sobre uso de inteligência artificial em resumo, pôster e apresentação, e vale conferir o regulamento do evento antes do envio.
Posso colocar dado de paciente na ferramenta?
Dado pessoal, resultado não publicado e material sob confidencialidade têm tratamento próprio em qualquer política interna, e essa é exatamente a pergunta que se leva ao jurídico e ao compliance antes do uso. A pergunta que costuma vir junto é onde o conteúdo inserido fica armazenado e o que o contrato com o fornecedor permite.
Existe norma brasileira específica sobre IA em conteúdo médico?
O que localizamos e conferimos são princípios setoriais internacionais, publicados pela federação internacional da indústria farmacêutica em julho de 2022, com toolkit de apoio publicado em 2023, e a internalização deles pela associação brasileira da indústria farmacêutica de pesquisa, que hospeda a versão em português. Eles são orientações não vinculantes, feitas para serem adaptadas por cada organização. Sobre norma vinculante específica para este uso, a página não afirma, e a fonte de verdade para o seu caso é o compliance da sua empresa.
Onde essa conversa continua.
Esta página é uma das oito da série sobre a máquina no preparo de uma apresentação médica.