Talk de Midas Pharma · Imprensa

Como dar entrevista para a imprensa científica

Numa entrevista, o que fica com você é a frase. A pauta é do jornalista, o recorte é dele e a edição também. O preparo tem seis movimentos: perguntar pauta, veículo e público; escrever a frase que precisa sobreviver; falar em frases autossuficientes; repetir a mensagem central; fazer a ponte fora do escopo; combinar a checagem técnica.

Ver os seis movimentos
A queixa mais comum

"Publicaram justo a frase que eu menos disse."

A cena é sempre parecida. Quarenta minutos de conversa cuidadosa, com contexto, ressalva e nuance. Sai uma matéria de dois parágrafos, com uma frase entre aspas que você disse de passagem, e o achado central ficou de fora.

A leitura fácil culpa a edição. A leitura útil observa o mecanismo: o jornalista precisa de uma frase que caiba, que se sustente sozinha e que diga alguma coisa. Se ele encontrar duas candidatas, ele escolhe a melhor das duas. Quem entrega uma frase excelente e autossuficiente decide a escolha antes de ela acontecer.

É por isso que o preparo de entrevista começa por escrever, e não por ensaiar respostas. Uma frase completa, com o achado e o motivo de ele importar, escrita antes da conversa e repetida dentro dela.

O preparo

Dois antes, três durante, um depois.

Antes da conversa

Pergunte a pauta, o veículo e o público

Três perguntas por mensagem, respondidas em um minuto: sobre o que é a matéria, onde ela sai e para quem. Elas mudam o vocabulário, a profundidade e os exemplos que você vai escolher.

Antes da conversa

Escreva a frase que precisa sobreviver

Uma frase completa, que faça sentido lida fora de contexto, com o achado e o porquê dele importar. Ela é o seu produto na entrevista, e tudo o mais é apoio.

Durante

Torne cada frase autossuficiente

Frases que começam com "isso", "esse dado" ou "como eu disse" morrem na edição, porque o trecho anterior pode ter saído. Repetir o sujeito parece redundante na conversa e é o que faz a citação sobreviver.

Durante

Repita a mensagem central

Três vezes, com palavras diferentes, em momentos diferentes. A repetição aumenta a chance de a versão que você mais gosta ser a que entra, e ela sinaliza ao jornalista o que você considera o centro da história.

Durante

Faça a ponte quando a pergunta sai do escopo

Diga o que você sabe, diga o limite do que você pode afirmar, e retorne ao território onde a sua resposta é sólida. Especular fora do próprio campo é o que costuma gerar a frase que você menos queria ver publicada.

Depois

Combine a checagem do trecho técnico

Ofereça revisar números, nomes e definições antes da publicação. Boa parte dos jornalistas de ciência aceita, porque erro técnico é problema deles também. Peça a checagem do dado, e a edição segue sendo do veículo.

O terceiro movimento é o de maior retorno por esforço. Frases que começam com "isso" ou "esse dado" perdem o sujeito no corte, e o sujeito repetido é o que faz a citação chegar inteira ao leitor.

Duas delimitações

O que a assessoria faz, e o que esta página não decide.

A assessoria de imprensa

A assessoria trabalha a relação com o veículo, o agendamento, o material de apoio e o acompanhamento da pauta. Boa assessoria abre portas que o pesquisador sozinho levaria anos para abrir, e prepara o terreno da conversa.

A frase, essa precisa sair da sua boca, com o seu vocabulário e a sua leitura do dado. As duas coisas se somam: a assessoria abre a porta, e o preparo decide o que entra por ela.

O que a sua empresa permite

Para quem fala como porta-voz de indústria, o que pode ser dito publicamente sobre produto, indicação ou estudo em andamento é decidido dentro da própria empresa, junto com as áreas médica, jurídica e regulatória. Essa conversa acontece lá, antes de qualquer entrevista.

Nota de escopo. Nenhuma afirmação sobre norma, regulação ou política de comunicação é feita nesta página. Ela trata do preparo da fala, e o limite do que se pode dizer se define com quem responde por isso na sua casa.

Perguntas

O que costumam perguntar antes de falar com a imprensa.

Como dar uma boa entrevista para a imprensa científica?

Escrevendo antes a frase que precisa sobreviver à edição. A pauta é do jornalista, o recorte é dele e o corte também. O que fica com você é a formulação: uma frase completa, que faça sentido lida fora de contexto, repetida três vezes ao longo da conversa com palavras diferentes. Perguntar antes qual é a pauta, o veículo e o público resolve o resto do preparo.

Como evitar ser citado fora de contexto?

Falando em frases autossuficientes. Uma citação é extraída de um trecho, e frases que começam com "isso" ou "esse resultado" perdem o sujeito quando o parágrafo anterior sai. Repetir o sujeito soa redundante na conversa e é exatamente o que faz a citação chegar inteira ao leitor. É a técnica mais barata e a mais eficaz das disponíveis.

Posso pedir para ler a matéria antes de publicar?

A prática varia por veículo, e vale perguntar sem constrangimento. O pedido que costuma ser aceito com naturalidade é mais estreito: checar números, nomes, unidades e definições técnicas. Ele ajuda o jornalista, que também não quer erro, e mantém a edição onde ela pertence, que é na redação.

E quando a pergunta sai do meu campo?

Diga isso, com o limite explícito, e volte ao seu território. "Essa parte está fora do meu campo, e o que eu posso afirmar é isto." A frase é curta, honesta e costuma ser respeitada. Especular fora da própria área é a origem mais comum da citação que o entrevistado se arrepende de ter dado.

A assessoria de imprensa não resolve isso?

A assessoria trabalha na relação com o veículo, no agendamento, no material de apoio e no acompanhamento da pauta, e faz isso bem. O que ela não faz por você é a frase, porque ela precisa sair da sua boca, com o seu vocabulário e a sua leitura do dado. As duas coisas se somam: a assessoria abre a porta, e o preparo decide o que entra pela porta.

Próximo passo

Escreva a sua frase antes do próximo telefonema.

Uma frase completa, com o achado e o motivo de ele importar, que faça sentido lida sozinha. Teste lendo em voz alta sem nenhum contexto antes. Se ela se sustentar assim, ela sobrevive à edição. O mapa dos formatos traz o preparo comum às sete salas do congresso.

Ver o mapa dos formatos

Para preparar porta-vozes que falam com imprensa com frequência, a Anamnese Estratégica é uma conversa de 30 minutos sobre o caso específico.

Fernando Palacios Fundador da Storytellers, primeira empresa de storytelling do Brasil, e 2x World's Best Storyteller, World HRD Congress, Mumbai, 2017 e 2018.